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A estudante paulistana de 21 anos, Stéphani Souza, denunciou o racismo na publicidade em trabalho para a faculdade Anhembi Morumbi, aonde estuda.

Estudante de Publicidade e Propaganda da Anhembi Morumbi, Stéphani Souza, de 21 anos, escolheu como tema para um trabalho semestral, o racismo na publicidade, onde criou uma campanha-denúncia, que acabou repercutindo de forma viral nas redes sociais.

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Antes, ela fez um levantamento de informações para comprovar que a crítica abordada tinha fundamento, e convocou pelo facebook negros e negras que gostariam de participar. Conseguiu um bom número em SP, RJ e BH. “Como o tempo era curto, não conseguimos tirar fotos com todos”, explica. Confira abaixo a entrevista que ela concedeu ao blog Cachos e Fatos:

Sabrinah Giampá- Me fale sobre o seu trabalho

Stéphani Souza – O trabalho era simples, você deveria buscar uma assunto étnico racial, encontrar uma falha  e dar uma solução através de anúncios. No caso, sempre que posso, estou comentando ou postando coisas sobre o racismo, então esse trabalho caiu como uma luva para mim e meu grupo (Caroline Mendonça e Victória Ventura, Marcelo Abdelmassih) super topou a ideia. Não foi difícil criar este conceito, basta andar nas ruas de São Paulo que você encontra a maioria dos anúncios sem o negro.

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Nunca me senti representada na publicidade. Quando era criança, acreditava que seria bonita apenas se eu fosse loira, tivesse um belo corpão e cabelos longos. Comecei a alisar meu cabelo com 7 anos de idade. Passei por vários processos agressivos no cabelo para controlar minha raiz e cheguei a quase ficar careca duas vezes, quando acabei entrando em depressão. Eu comprava a revista Capricho semanalmente e ansiava ser como aquelas meninas, eu queria que aquele tipo de menino ideal, apresentado na revista, gostasse de mim.

Sabrinah Giampá – Como mulher negra, você se sente representada na publicidade em geral? Esse questionamento que lhe fez escolher o tema da campanha?

Stéphani Souza – Sim. Nunca me senti representada na publicidade. Quando era criança, acreditava que seria bonita apenas se eu fosse loira, tivesse um belo corpão e cabelos longos. Comecei a alisar meu cabelo com 7 anos de idade. Passei por vários processos agressivos no cabelo para controlar minha raiz e cheguei a quase ficar careca duas vezes, quando acabei entrando em depressão. Eu comprava a revista Capricho semanalmente e ansiava ser como aquelas meninas, eu queria que aquele tipo de menino ideal, apresentado na revista, gostasse de mim.

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Hoje, percebo que as coisas estão mudando, lentamente, mas estão. O movimento negro está ganhando voz, estamos recuperando a autoestima, alimentando nossas crianças com estímulos positivos de autoaceitação. Acredito que a mudança atual não se resume apenas ao negro, mas estamos confrontando a publicidade como um todo, questionando os padrões de beleza estabelecidos

Sabrinah Giampá – E como, ainda naquela época, antes de estudar publicidade, você se recorda da presença do negro neste tipo de anúncio? Acha que alguma coisa mudou da sua infância para a idade adulta

Stéphani Souza – O negro que mais aparecia na TV era aquele do comercial da C&A, e mesmo assim, ele era visto como motivo de zoeira entre meus amigos. Era impossível ver na cidade mensagens em outdoors, revistas, e muito menos TV, dizendo que meu cabelo e minha cor eram lindos. Não passava nem pela minha cabeça usar meu cabelo natural. Hoje, percebo que as coisas estão mudando, lentamente, mas estão. O movimento negro está ganhando voz, estamos recuperando a autoestima, alimentando nossas crianças com estímulos positivos de autoaceitação. Acredito que a mudança atual não se resume apenas ao negro, mas estamos confrontando a publicidade como um todo, questionando os padrões de beleza estabelecidos, até porque a publicidade é uma ditadora de moda e de comportamento.

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Facilmente nos pegamos desejando os últimos lançamentos apresentados nas campanhas. Eu estudo e trabalho com isso, sei que é assim que funciona. Meu questionamento é: porque não buscar vender a realidade? Por que ter vergonha de mostrar o que realmente somos ao invés de fazer as pessoas infelizes buscando se encaixar em um padrão totalmente fora da sua genética e essência? Podemos ser negros, brancos, magros, gordos, altos e baixos. Não tem nenhum problema nisso. A mente do consumidor está mudando, e nós publicitários precisamos nos adequar a isso, principalmente para poder vender mais do que uma ilusão. Precisamos criar sentimentos e empatia nas pessoas, vender mais do que um produto, as pessoas precisam se sentir representadas. Precisam se ver na marca, e não ver o que o mídia diz que elas deveriam ser, entende?

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Sabrinah Giampá- Qual a conclusão que tirou com este trabalho?

Stéphani Souza – Minha conclusão foi a de que a publicidade em si nasceu racista. Em toda a sua história, são raros os negros dentro das agências, que têm algum destaque na área. Isso é fato, e está comprovado através de estudos. Outra coisa muito importante que concluí, é que os donos das agências não acreditam no negro como consumidor. Eles acreditam que o negro quer tudo o que o branco tem, e por isso utilizam mais essa imagem. E é isso que precisa mudar. Um estudo realizou uma pesquisa na revista VEJA entre o ano de 1985 a 2005. Durante a pesquisa de campo, analisaram 60 exemplares da revista semanal, nos quais foram encontrados 1.158 anúncios com presença de figura humana, dos quais apenas 86 apresentavam um ou mais negros, o que equivale a 7% do total. Com relação ao número de atores, quantificaram 3.186 dos quais somente 156 eram negros, ou seja, cerca de 5%. Eles analisaram os números ano a ano, percebendo um aumento lento e gradual no número de anúncios com negros. Partindo de 3% em 1985 para chegar a 2005 com inexpressivos 13%, ou seja, foram necessários 20 anos para que o número de peças publicitárias com atores negros crescesse apenas 10%.

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Sabrinah Giampá- Você falou sobre o negros dentro das agências, gostaria que falasse qual a sua percepção de como ele é retratado nos poucos anúncios aonde aparece.

Stéphani Souza- Embora a presença do negro na publicidade brasileira tenha aumentado nas últimas décadas, ela ainda deixa muito a desejar, sem contar que é sempre uma imagem estereotipada ou pro forma, a representação de negros nos anúncios reflete o persistente racismo da sociedade brasileira. O negro é atleta, é carente, é o diferente, é trabalhador braçal, mas nunca aparece como executivo rico, modelo de perfume caro ou membro de uma família bem sucedida! Então vem o nosso questionamento: O negro não vende? O negro não é público alvo das marcas? E nossos trabalhos nos mostraram que a publicidade pensa que não. Então resolvi criar esses anúncios como se fossem protestos (e não deixaram de ser) pra mostrar a nós desse meio que o negro quer sim se ver representado nos anúncios, que o negro se questiona porque existe tão poucos de nós por ai. E a repercussão inesperada do meu trabalho acabou de mostrando que não são poucos que pensam assim! Li uma entrevista, onde um publicitário renomado disse o seguinte: “Nos comerciais, as pessoas querem se ver representadas como lindas, ricas e poderosas. E os pretos são pobres, meu amor”. Se um publicitário renomado pensa dessa forma, imagine a sua agência.

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FONTES:
http://www.revistas.univerciencia.org/index.php/rumores/article/viewFile/6573/5973
http://portal.anpocs.org/portal/index.php?option=com_docman&task=doc_view&gid=4545&Itemid=356
https://getpocket.com/a/read/782609471
http://www.intercom.org.br/papers/regionais/sudeste2009/resumos/R14-0629-1.pdf
http://publicacoes.unigranrio.edu.br/index.php/comunigranrio/article/viewFile/702/557
http://repositorio.uniceub.br/bitstream/123456789/1556/2/20366688.pdf
e esse http://bibliotecadigital.fgv.br/ojs/index.php/gvexecutivo/article/viewFile/49190/48003

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